segunda-feira, 9 de julho de 2007

Mais produção literária alheia!


Terça-feira gorda

Caio Fernando de Abreu

De repente ele começou a sambar bonito e veio vindo para mim. Me olhava nos olhos quase sorrindo, uma ruga tensa entre as sobrancelhas, pedindo confirmação. Confirmei, quase sorrindo também, a boca gosmenta de tanta cerveja morna, vodca com coca-cola, uísque nacional, gostos que eu nem identificava mais, passando de mão em mão dentro dos copos de plástico. Usava uma tanga vermelha e branca, Xangô, pensei, Iansã com purpurina na cara, Oxaguiã segurando a espada no braço levantado, Ogum Beira-Mar sambando bonito e bandido. Um movimento que descia feito onda dos quadris pelas coxas, até os pés, ondulado, então olhava para baixo e o movimento subia outra vez, onda ao contrário, voltando pela cintura até os ombros. Era então que sacudia a cabeça olhando para mim, cada vez mais perto.

Eu estava todo suado. Todos estavam suados, mas eu não via mais ninguém além dele. Eu já o tinha visto antes, não ali. Fazia tempo, não sabia onde. Eu tinha andado por muitos lugares. Ele tinha um jeito de quem também tinha andado por muitos lugares. Num desses lugares, quem sabe. Aqui, ali. Mas não lembraríamos antes de falar, talvez também nem depois. Só que não havia palavras. havia o movimento, a dança, o suor, os corpos meu e dele se aproximando mornos, sem querer mais nada além daquele chegar cada vez mais perto.

Na minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora, acompanhando o movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce, olhar para baixo, voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então sacudir os cabelos molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou o peito suado no meu. Tínhamos pêlos, os dois. Os pêlos molhados se misturavam. Ele estendeu a mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer coisa. O quê, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada: apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também. Eu estendi a mão aberta, passei no rosto dele, falei qualquer coisa. O quê, perguntou. Você é gostoso, eu disse. Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também.

Eu queria aquele corpo de homem sambando suado bonito ali na minha frente. Quero você, ele disse. Eu disse quero você também. Mas quero agora já neste instante imediato, ele disse e eu repeti quase ao mesmo tempo também, também eu quero. Sorriu mais largo, uns dentes claros. Passou a mão pela minha barriga. Passei a mão pela barriga dele. Apertou, apertamos. As nossas carnes duras tinham pêlos na superfície e músculos sob as peles morenas de sol. Ai-ai, alguém falou em falsete, olha as loucas, e foi embora. Em volta, olhavam.

Entreaberta, a boca dele veio se aproximando da minha. Parecia um figo maduro quando a gente faz com a ponta da faca uma cruz na extremidade mais redonda e rasga devagar a polpa, revelando o interior rosado cheio de grãos. Você sabia, eu falei, que o figo não é uma fruta mas uma flor que abre pra dentro. O quê, ele gritou. O figo, repeti, o figo é uma flor. Mas não tinha importância. Ele enfiou a mão dentro da sunga, tirou duas bolinhas num envelope metálico. Tomou uma e me estendeu a outra. Não, eu disse, eu quero minha lucidez de qualquer jeito. Mas estava completamente louco. E queria, como queria aquela bolinha química quente vinda direto do meio dos pentelhos dele. Estendi a língua, engoli. Nos empurravam em volta, tentei protegê-lo com meu corpo, mas ai-ai repetiam empurrando, olha as loucas, vamos embora daqui, ele disse. E fomos saindo colados pelo meio do salão, a purpurina da cara dele cintilando no meio dos gritos.

Veados, a gente ainda ouviu, recebendo na cara o vento frio do mar. A música era só um tumtumtum de pés e tambores batendo. Eu olhei para cima e mostrei olha lá as Plêiades, só o que eu sabia ver, que nem raquete de tênis suspensa no céu. Você vai pegar um resfriado, ele falou com a mão no meu ombro. Foi então que percebi que não usávamos máscara. Lembrei que tinha lido em algum lugar que a dor é a única emoção que não usa máscara. Não sentíamos dor, mas aquela emoção daquela hora ali sobre nós, eu nem sei se era alegria, também não usava máscara. Então pensei devagar que era proibido ou perigoso não usar máscara, ainda mais no Carnaval.

A mão dele apertou meu ombro. Minha mão apertou a cintura dele. sentado na areia, ele tirou da sunga mágica um pequeno envelope, um espelho redondo, uma gilette. Bateu quatro carreiras, cheirou duas, me estendeu a nota enroladinha de cem. Cheirei fundo, uma em cada narina. Lambeu o vidro, molhei as gengivas. Joga o espelho no mar pra Iemanjá, me disse. O espelho brilhou rodando no ar, e enquanto acompanhava o vôo fiquei com medo de olhar outra vez para ele. Porque se você pisca, quando torna a abrir os olhos o lindo pode ficar feio. Ou vice-versa. Olha pra mim, ele pediu. E eu olhei.

Brilhávamos, os dois, nos olhando sobre a areia. Te conheço de algum lugar, cara, ele disse, mas acho que é da minha cabeça mesmo. Não tem importância, eu falei. Ele falou não fale, depois me abraçou forte. Bem de perto, olhei a cara dele, que olhada assim não era bonita nem feia: de poros e pêlos, uma cara de verdade olhando bem de perto a cara de verdade que era a minha. A língua dele lambeu meu pescoço, minha língua entrou na orelha dele, depois se misturaram molhadas. Feito dois figos maduros apertados um contra o outro, as sementes vermelhas chocando-se com um ruído de dente contra dente.

Tiramos as roupas um do outro, depois rolamos na areia. Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone, teu signo ou endereço, ele disse. O mamilo duro dele na minha boca, a cabeça dura do meu pau dentro da mão dele. O que você mentir eu acredito, eu disse, que nem na marcha antiga de Carnaval. A gente foi rolando até onde as ondas quebravam para que a água lavasse e levasse o suor e a areia e apurpurina dos nossos corpos. A gente se apertou um conta o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico. A gente se afastou um pouco, só para ver melhor como eram bonitos nossos corpos nus de homens estendidos um ao lado do outro, iluminados pela fodforescência das ondas do mar. Plâncton, ele disse, é um bicho que brilha quando faz amor.

E brilhamos.

Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço. Minha mão agarrou um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai-ai, gritavam, olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito abertos e sem nenhuma culpa entre as outras caras dos homens. A boca molhada afundando no meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo pela mão, protegê-lo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu correndo pela areia molhada, os outros todos em volta, muito próximos.

Fechando os olhos então, como um filme contra as pálpebras, eu conseguia ver três imagens se sobrepondo. Primeiro o corpo suado dele, sambando, vindo em minha direção. Depois as Plêiades, feito uma raquete de tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.

domingo, 8 de julho de 2007

Domingo de manhã bem cedo...


De manhã bem cedo de um domingo... depois de uma longa noite e madrugada... que, por sua vez, seguiram um dia quase todo dormindo devido a uma ótima noite de paz, vinho, música, boa companhia e muito carinho... Sem preço, com certeza!!!!
Monografia cada vez mais perto de ficar pronta... uma humilde contribuição à causa (para o Sindicato ahuahauahua), um primeiro passo rumo à luta pelos direitos negados!!!! X-Men unidos também pelos Morlocks!!! Eles devem sair dos túneis e do sub-mundo e virem para a superfície, lugar onde todos os seres humanos, por mais diferentes que sejam, devem brilhar!!!!!
Assim que concluída a mono, espero disponibilizá-la aqui na net... "Homossexualidade, Legislação e Jurisprudência no Pós 1988", este é o tema! A luta: por direitos iguais, pela livre expressão da sexualidade, pelo fim dos dogmas absolutistas que não visam à felicidade humana, mas seguir antigos cânones duma civilização há muito perdida e que não era caracterizada pela plenitude e felicidades humanas, mas por uma obediência cega a um deus muito humano nos seus defeitos... Que os seus relatos possam brevemente ser chamados de mitologia... Venceremos!!!! Como diz a célebre música, o hino gay: I Will Survive!!!!!!

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Poesia

A QUIETUDE TUDO SANA

A quietude tudo sana
nem que movimento seja
a vida que a gente veja,
a visão que nos engana.

Entre a ilusão e o real,
instituem-se conceitos,
alguns, na razão perfeitos,
outros, mentira ideal.

No entanto, prossegue a vida
por ambos abastecida,
indiferente e fatal,

pois dentro do movimento
que seduz ao pensamento
viaja a morte, afinal.
Clóvis Campêlo
Recife, 1992

terça-feira, 3 de julho de 2007

Poesia

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE AMOR

Pra não dizer que não falei de amor
despojei-me de todas as medidas,
encarei sem receio a própria vida,
sanei no verso torto qualquer dor;

busquei lembrar do brilho dos teus olhos,
do toque morno da língua em tua boca,
do teu corpo úmido, nú, sem roupa,
do teu regaço onde me recolho;

joguei por terra a vã filosofia,
transpus em noite quente a tarde fria;

transformei profundo abismo em ponte,
fiz do firmamento novo horizonte,

pra não dizer que não falei de amor...

Clóvis Campêlo
Recife, 2007

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Links interessantes: manifesto contra HOMOFOBIA e a favor do PLC 122/2006

Alguns links interessantes:
Site da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais - Aqui você encontra E-camapnha 1, link para o texto do PLC 122/2006, um manifesto e uma moção de apoio ao projeto
Texto integral da Lei Estadual no. 7.309, de 10 de janeiro de 2003, que proíbe a discriminação por orientação sexual.
Decreto que regulamenta a Lei no. 7.309/2003 (site da ABGLT)

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Evangélicos de prontidão contra o Projeto de Lei da Câmara 122/2006, que criminaliza a homofobia!

Termos que reagir... Vejam este manifesto!!!!! Vamos nos informar sobre o projeto de lei e informar às pessoas que abominam a discrimanção e o totalitarismo sonhado pelas igrejas que querem impor sua ideologia ao mundo... À primeira vista, o projeto parece ser pesado... Mas com alguma análise, percebe-se que é similar ao preconceito por raça (coisa que na verdade nem existe, pois somos todos mestiços), que mudou muita coisa!!! Quem tem da minha idade pra lá deve se lembrar muito bem que era corriqueiro contar piadas racistas, que passavam até na televisão!! Hoje, quem conta costuma ser censurado pelos demais e pode até passar uma temporada da cadeia!!!! Como isso mudou tanto, vocês devem saber: campanhas educativas e LEI RÍGIDA E SEVERA!!!!!! Vamos melhoras nossa sociedade, a criando realmente livre!!!!! Vamos reagir!!!!!!
Eles estâo preparando grande manifestação aqui em Campina Grande!!!!!
Felizmente, o projeto já foi aprovado na Câmara dos Deputados e está no Senado. Em lá sendo aprovado, considera-se certa a sua sanção pelo presidente, já que a luta contra a homofobia é compromisso do governo federal (veja programa Brasil de Homofobia).



Vejam o manifesto em:
http://www.vinacc.org.br/

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Primeiro quase confronto devido à homofobia!


Pois foi! De domingo pra segunda passada, dois amigos se beijaram de frente da Fava de Rose. Um pouco distante, vi uma galera zoar deles... Bêbo, me intrometi perguntando (gritando, na verdade) qual era o problema e coisa e tal... Quase que rolava briga!!!! Só sei que a galera chegou perto de mim e o cara desistiu, acho... Num sei nem se a galera dele era maior do que a minha...
Briga de rua?!?! Será este o destino de um pobre ativista que nunca brigou como eu?? Sei não... Será que se o Estado não age, a gente pode agir com as próprias mãos??? Ou é melhor esperar que a sociedade um dia "acorda" sem preconceitos hehehehehehehe babaquice gigante isto!!!! Mas também fico tentando pensar quantos direito foram conseguidos sem barulho e um pouco de sangue... Acho melhor voltar pra academia e pro boxe!!!!!!!